5 de outubro de 2015

As Praxes e a Tragédia da Praia do Meco



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               Estimados Leitores

Tenho andado afastada do blog por falta de tempo e de motivação. Mas hoje estou aqui para deixar a minha opinião sobre um assunto polémico que acontece anualmente:
                           As praxes

Então vamos lá.
A morte de seis estudantes, provocada pelas praxes levadas a cabo na noite de 15 de dezembro de 2013 na Praia do Meco, não serviu de exemplo para que, casos semelhantes, não voltasssem a repetir-se.

Vem esta introdução a propósito do caso da jovem estudante algarvia que, durante uma praxe, entrou em estado de coma alcoólico, tendo sido levada ao Hospital onde ficou uma noite em observação.

A maioria dos leitores deve estar ao corrente, dado que, durante alguns dias, a Comunicação Social esteve sempre "em cima do acontecimento."

Há quem defenda que as praxes fazem parte da tradição Académica, tal como outras tradições que todos conhecemos por este país fora e que, por esse motivo, elas devem continuar. Até aqui tudo bem. Mas todos sabemos que há tradições e tradições e que deviam existir leis e regulamentos que salvaguardassem a dignidade, a saúde física e psicológica, tal como a vida do ser humano.

Pesquisando na Net por Regulamentos, Estatutos ou Códigos em relação a esta matéria, encontrei alguns e fiquei abismada. Não fazia a mínima ideia de que as praxes obedeciam a tantos critérios. De tal modo que o documento, em formato PDF, referente a uma das muitas Universidade espalhadas pelo País, tinha, nada mais nada menos, que 46 páginas.

Li algumas, passei os olhos por cima de outras onde encontrei todos os itens que mencionei acima, tal como Direitos e Deveres dos Caloiros, da Comissão de Praxes, dos Veteranos, dos Pseudo- Doutores, dos Doutores, do Superior Hierárquico e não me recordo se havia mais algum grau pelo meio dessa Hierarquia.

Escusado será dizer que o caloiro está na base da "Pirâmide" e no topo, o Superior Hierárquico. O Superior Hierárquico é aquela pessoa que detém todos os poderes e que tem de ser consultada para tudo o que diga respeito a qualquer atividade regida pelo Código que regulamenta as praxes.

Dir-se-ia que as praxes e toda a sua envolvência (Estatutos, Regulamentos, Códigos, etc.) funcionam como um Estado, com as suas próprias leis, dentro de outro Estado: o Governo. 

Uma notícia no CM online, de 06.09.2015 dizia o seguinte: "praxes abusivas motivaram 80 queixas no ano letivo de 2014/2015 mas só 45 mereceram acompanhamento posterior." Uma outra no mesmo jornal datado de 28.09.2015 foi dita na primeira pessoa: "Fui humilhado na Faculdade por ser homossexual." 

E ainda outra que, na minha opinião, é de bradar aos Céus: "Praxistas defendem "direito à humilhação", num debate na Aula Magna em Lisboa no dia 03 de Fevereiro de 2014. Esta notícia, também online, vinha no jornal Esquerda Net.

Também em Leiria os praxistas brincaram com a tragédia da praia do Meco,  ao ponto de obrigarem os caloiros a deitarem-se junto de uma piscina em plástico fingindo que estavam mortos.
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Li muitos comentários, uns de cidadãos anónimos, outros de alunos e ex-alunos e outros, talvez de antigos praxantes e, como sempre, "cada cabeça, cada sentença." Eis alguns deles:

"O caloiro não tem qualquer tipo de regalias."O caloiro deve servir, respeitar e obedecer." "Obrigatoriedade de cumprir toda e qualquer tarefa."

Por outro lado, os praxistas defendem-se: 
"As praxes não são obrigatórias. Só é praxado quem quer. Os alunos são suficientemente adultos para decidirem se querem ou não ser praxados."
"As praxes ajudam os caloiros a integrarem-se nos grupos e a prepararem-se para a vida e para o futuro."

Mas todos sabemos que isto não é verdade. Na prática, o aluno tem que fazer tudo o que os praxistas exigirem sob pena de serem humilhados por estes e por todos os colegas durante o primeiro ano, e muitos, durante os anos que o aluno frequenta a Faculdade.

Calculo que muitos tenham visto, na praia algarvia, as imagens dos alunos enterrados na areia até ao pescoço, com as mãos atadas, depois de terem mergulhado na água. Eles próprios foram obrigados a cavar o que poderia ter sido "a sua própria sepultura." 
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Como podiam defender-se dos praxantes e do álcool que foram obrigados a ingerir? Talvez o facto de uma aluna ter entrado em coma alcoólico, tenha contribuído para que outra tragédia não tenha acontecido.

Julgo que todos sabemos que já houve muitas mortes provocadas por violências físicas e psicológicas a que as praxes ou os praxantes obrigam. Porém, não tenho ideia de que alguém tenha sido condenado. 

Também sabemos que todos os anos a violência física e psicológica é uma constante nas praxes, podendo os alunos mais frágeis e sensíveis, ficar traumatizados até ao fim dos seus dias. 

Um caso verídico porque sou testemunha ocular

No dia em que fui, com um familiar, matricular-se na Universidade onde fora colocado, um jovem que devia rondar os 18/19 anos e se encontrava à entrada dos portões que levavam à Secretaria, abordou-nos perguntando se era o primeiro ano, ao que respondemos afirmativamente. "Então - disse ele - estejam preparados para as praxes porque algumas são de arrasar."

Olhámo-nos e, como era a primeira vez que estávamos perante aquela situação, não demos muita importância. Depois desse familiar se ter matriculado dirigimo-nos para a porta de saída. Um jovem e uma jovem, trajados a rigor, aproximaram-se de nós dizendo: "os senhores podem sair e esperar junto ao portão. O jovem fica connosco."

Saímos e esperámos. Alguns segundos depois ao olharmos para trás, não reconhecemos o nosso familiar: os cabelos, tal como o rosto e as roupas estavam pintados de todas as cores. Quando se aproximou, e para não se sentir mal, eu brinquei com a situação: "Pareces uma verdadeira Obra de Arte!  Quer dizer: "Uma pintura abstrata!" E todos rimos. Afinal, nada que água e detergente não pudessem lavar. 

Íamos regressar quando uma jovem, foi "agarrada" pelos dois praxantes e ficámos à espera para ver qual seria a sua "punição." Disseram o seu nome e, depois de lhe meterem tintas de todas as cores nos cabelos, ouvimo-los dizer: "Agora deita-te e finge que estás a ter um orgasmo." 

Escusado será dizer que ficámos chocadíssimos. A jovem obedeceu. Entretanto o tal jovem aproximou-se de nós. "Se fosse minha filha ou minha irmã ia lá levantá-la e chamava-lhes todos os nomes." Foi aí que compreendemos as suas palavras. 
                                 
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Durante todo esse ano, os caloiros tiveram de fazer, sempre, o que os obrigaram, nomeadamente, irem mergulhar, em pleno mês de Outubro, ao Sol-Pôr (com muito frio), numa fonte que havia no centro de um jardim. E outras coisas como serem obrigados a irem a bares indicados pelos praxistas e ficarem lá até à hora que eles entendessem.

Contado por uma amiga que hoje é mãe de família:

"nunca sofri tanto na minha vida como nos anos em que frequentei a Faculdade. Sempre fiz tudo para me dar bem com todos os alunos da minha turma e sempre fiz o que me exigiram. 

Sabes que sofro de epilepsia e entrava em pânico só de pensar que um dia podia sofrer um ataque diante dos "meus colegas." Felizmente isso nunca aconteceu. Mas a verdade é que, durante todo o Curso (Inglês), nunca ninguém se aproximou de mim. 

Todos aqueles anos me senti a pessoa mais infeliz do mundo porque nunca tratei ninguém mal e, alguns colegas não perdiam nenhuma oportunidade para me humilharem sem que eu compreendesse porquê. No entanto sou uma pessoa normal, não faço mal a ninguém, não quero mal a ninguém e só gostava que todos os seres humanos fossem felizes. Nunca contei aos meus pais para não sofrerem e, também, porque a minha força de vontade superou o meu sofrimento. E consegui."

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                                                O meu ponto de vista

1º. Ponto - Depois de tudo o que mencionei acima, penso que existe, em muitas Universidades, um Código Secreto só conhecido entre as Comissões de Praxes e que não pode ser revelado em caso algum sob pena de represálias. Mas isto sou eu a pensar. E, se assim for, todos os responsáveis das Universidades deviam estar ao corrente desse secretismo e de tudo o que diz respeito às leis e aos regulamentos das praxes.

2º. Ponto - É em nome duma tradição que se vão ceifando vidas de jovens que seriam os homens e mulheres de amanhã? Não há nenhuma lei a nível governamental que imponha um limite a esta guerra sem tréguas, movida pelas Comissões de Praxes aos alunos que enfrentam, pela primeira vez, este género de violências?

3º. Ponto - Como é que, rastejar pela terra como uma cobra, mergulhar nas águas geladas duma fonte, enterrar-se na areia, deixando, apenas, a cabeça de fora, "tomar banho" nos excrementos dos animais (Escola Agrária), deixar os jovens numa floresta desconhecida durante a noite e tantos outros vexames, podem contribuir para se prepararem para a vida e para o futuro?

4º. e Último Ponto - Para mim só haveria uma solução: ou acabar, definitivamente, com as praxes ou, no caso de continuarem, que fosse, apenas e só, para criarem incentivos (programas culturais, artísticos, musicais, danças e tudo o que rime com cultura), para que os jovens pudessem integrar-se numa Sociedade mais justa, sem medos e assim, no futuro, serem capazes de contribuir, com entusiasmo, para a Economia do País, para o seu desenvolvimento a todos os níveis, para o seu próprio desenvolvimento e para o desenvolvimento e bem-estar da Comunidade onde estivessem integrados.    

Se assim fosse, penso que, um dia, teríamos homens e mulheres capazes de governar o País com aquela GARRA DE VERDADEIROS VENCEDORES.   

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