19 de dezembro de 2014

Fragmentos de uma vida




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                                  Estimados Leitores

Hoje dou por terminado o resumo de cada uma das histórias que compõem o meu livro "Os Milagres Ainda Existem." Porém, não vou fazer um resumo mas sim escrevê-la na íntegra. Como é um pouco longa, as imagens servem para dividi-la, digamos, por capítulos.



1 - As imagens que ilustram o texto foram retiradas do Google. Se tiverem Direitos de Autor, agradeço que entrem em contacto comigo para eliminá-las.

2 - Esta história foi premiada, na minha juventude, por uma revista (Crónica Feminina), hoje extinta. Fiz, apenas, algumas alterações.

                                                        Fragmentos de uma vida

Não me lembro, com exactidão, o que se passou na minha vida até à idade de 15 anos mas, naturalmente, não teria sido melhor do que a que se lhe ia seguir.

Vivia numa casa pequena, sem janelas, dividida por tábuas, algumas já ruídas pelo caruncho.

Os móveis consistiam numa mesa e algumas cadeiras, todas elas a cair de velhas, às quais o meu pai ia acrescentando pregos, um após outro, para que se mantivessem de pé.

A minha cama era um amontoado de trapos distendidos sobre algumas tábuas que ainda restavam na velha habitação que pertencera aos avós dos meus avós.
Que frio e fome eu passei! Infelizmente os meus pais faleceram num acidente de viação quando regressavam do trabalho. 

Como acontece frequentemente, o motorista que não parou, como devia, para cumprir as regras de prioridade, foi embater contra a motorizada conduzida pelo meu pai. 
Os dois foram projectados a grande velocidade e só pararam a vários metros do local do embate. 

É claro que a pessoa em questão, nem se dignou parar e nunca se soube quem provocou o acidente.
Fiquei só, com uma irmãzinha nos braços, de poucos meses.

Com as poucas economias que restaram do trabalho dos meus pais consegui que ela se alimentasse durante algum tempo. Mas, apesar de todo o amor e de todos os cuidados que eu lhe dedicava, alguns meses depois, caiu doente. 

Corri com ela ao hospital e depois de ter contado o que se passava, tive a resposta de que ela estava desidratada e mal nutrida. Eu não sabia, muito bem, o que tudo aquilo significava. Compreendi, apenas, que a minha irmãzinha, adorada, estava doente e que eu pouco podia fazer por ela.

É claro que, se esta história se passasse nos dias de hoje, logo viriam as assistentes sociais, a minha irmã ser-me-ia retirada, levá-la-iam para um refúgio de crianças abandonadas e ou carenciadas e, naturalmente, começaria um processo para adopção. 


Mas, apesar de tudo, para mim seria preferível. 
Porém, esta história passou-se há mais de trinta anos numa aldeia recôndita do nosso País.


                                              Imagem Google

Para poder fazer face às suas necessidades comecei, talvez, pela parte mais difícil: pedir esmola. Quando alguém se dignava olhar-me nos olhos para dar-me uma moeda eu baixava-os envergonhada, ao mesmo tempo que dizia baixinho:”obrigada”. 

No entanto, essa dádiva ficava guardada, religiosamente, num cantinho do meu coração representando para mim a maior felicidade do Mundo. Depois, corria tão depressa para junto da minha irmãzinha que nem sentia os pés tocar o chão.


Não, sem antes ter parado na mercearia, a única da aldeia, para comprar alimentos.
É certo que, algumas pessoas da vizinhança, sabendo das nossas necessidades, ajudavam-nos como e com o que podiam mas eu sabia que, também elas, não podiam desfazer-se do pouco que tinham, para nos ajudar. 

E, à medida que o tempo passava as nossas necessidades acentuavam-se.
Até que um dia, o inevitável aconteceu. Quando chegava perto de minha casa com o produto das esmolas, notei um movimento estranho e inabitual e logo o meu coração começou a bater descompassadamente e as minhas pulsações aceleraram.

Um pensamento atroz cruzou o meu cérebro em segundos.
Não!…Não podia ser! Porém, ao aproximar-me para entrar na minha casa e abraçar a minha maninha, uma vizinha barrou-me a passagem, segurando-me com muita força. No entanto, com a força dos nervos consegui soltar-me e corri para o seu berço. 

A minha irmãzinha lá estava, deitadinha, toda tapada e parecia dormir. Contudo, ao aproximar-me para dar-lhe um beijo e pegá-la ao colo, o seu corpinho estava rígido e a face gelada.

Não posso nem sei descrever o que senti naquele momento! Senti que o Mundo tinha desabado sobre os meus ombros e, desesperada e cheia de remorsos, comecei a culpar-me por pensar que não tinha feito tudo o que estava ao meu alcance para que ela sobrevivesse. 


E, naquele momento, desejei, ardentemente, que Deus me levasse com ela.
O que, e como seria a minha vida a partir daquele momento? Sem família, sem amigos, sem ninguém, o que me restava?


                                                                Imagem Google

Entretanto, de entre um grupo de vizinhas, ouvi o meu nome. Uma delas veio ter comigo dizendo-me que conhecia alguém que precisava duma criada.
Passados poucos dias uma senhora veio buscar-me. 

É claro que eu não fui consultada e, mesmo que fosse, eu não tinha outra alternativa. Fui. Ou por outra: levaram-me. Os meus pais; a minha maninha; a minha casa e tudo o que eu tinha vivido e constituía o pequeno historial da minha vida, ficaram para trás. 

Eu não tive o direito de ficar perto dos entes que me eram queridos.
Comecei a trabalhar logo no dia seguinte numa casa, cujos proprietários eram donos de uma quinta e que, certamente, ficava a muitos quilómetros da minha aldeia, a avaliar pelo tempo que demorámos a chegar, mesmo indo de carro.

O trabalho era tanto e tinha de levantar-me tão cedo e deitar-me tão tarde que, por vezes, julgava que o meu corpo não podia mais. Nesses momentos pensei mesmo  pôr termo à vida. No entanto, à medida que o tempo ia passando parecia que Deus estava do meu lado e me ia redobrando as forças. 


Continuei nesta casa até à idade de dezoito anos, sem saber o que era amor nem carinho de ninguém pois a minha patroa tratava-me como a uma verdadeira escrava.
Como sofri durante aqueles três anos! 

Fosse Inverno ou Verão, fizesse frio de rachar ou estivesse um calor abrasador, lá partia eu através dos campos, de alguidar à cabeça, quase descalça, duas ou três vezes por semana. O meu destino era um pequeno ribeiro que ficava a cerca de um quilómetro onde eu ia lavar a roupa. 


De tanto ter de esfregar a roupa muito suja, feriam-se-me as mãos de tal maneira que, muitas vezes, julguei não poder suportar as dores!
Poucos meses depois conheci um rapaz que, tal como eu, também era órfão e trabalhava numa quinta que pegava com a dos meus patrões.

Depois de algumas palavras trocadas, às escondidas, de vez em quando - pois a minha patroa não queria namoricos - uma grande amizade nasceu entre nós.
A minha patroa, quando descobriu, proibiu-me, pura e simplesmente, de falar com ele.

Após esta proibição, e como não queria conflitos com ela, verificando que eu me afastava sempre que ele estava por perto, o acaso quis que nos encontrássemos na rua, frente a frente e eu não pude deixar de contar-lhe. 


Indignado com a atitude da minha patroa e, ao mesmo tempo preocupado, pediu-me, por favor, que lhe contasse como fora ali parar e porque é que eu deixava que me tratassem assim. 
                                                                         Imagem Google

Senti sinceridade nas suas palavras e contei-lhe as minhas amarguras: as mais antigas e as mais recentes. Escutou-me, atentamente, sem nunca me interromper.
Quando terminei respondeu apenas: “Tens sido uma verdadeira mulher com letras grandes e admiro o teu sacrifício." 

"De hoje em diante, se não quiseres sofrer sozinha, podes dividir comigo as tuas tristezas e amarguras. Assim talvez sejam, para ti, menos pesadas”. E continuou: “Não quero forçar-te a nada mas se entenderes que a nossa amizade pode continuar, ficarei muito feliz.”

A partir daquele dia começámos a encontrar-nos às escondidas sempre que os nossos afazeres o permitiam e quando tínhamos a certeza de que não levantaríamos suspeitas. E eu, algumas vezes, como não tinha outra alternativa, comecei a iludir a minha patroa saindo durante a noite enquanto 
todos dormiam.

E assim, os nossos encontros fortuitos duraram alguns meses.
Havia um muro alto a separar as duas quintas. Escolhíamos um local de onde algumas pedras se tinham desprendido e era aí que conversávamos sob um velho castanheiro.

Mas, nenhum de nós saltava a barreira que nos separava.
Duma simples amizade e talvez da nossa condição de pessoas humildes, nasceu um grande amor.

Quando se está apaixonado é muito difícil esconder esse sentimento por muito tempo porque, sem nos apercebermos, perdemo-nos em devaneios e, as pessoas que nos rodeiam reparam que há em nós uma transformação. 

É como se sonhássemos acordados. E, naturalmente, foi o que aconteceu comigo. Certamente, a minha patroa notou a minha transformação e começou a espreitar-me sempre que eu me afastava um pouco. Até ao dia em que descobriu que eu continuava a encontrar-me com o Manuel às escondidas.

Nesse dia, quando regressava do trabalho na quinta e me encaminhava para  casa, estaquei! 
Todos os meus pertences, que eram bem poucos, estavam espalhados pelo pátio. E, de repente, compreendi o que aquilo queria dizer. Entrei na cozinha mas não pedi desculpa porque achava que não tinha feito mal nenhum. 

Abri um dos armários, tirei um tacho para começar a preparar o jantar mas a minha patroa aproximou-se de mim e, como louca, arrancou-me o tacho das mãos, gritando que não queria mulheres como eu debaixo das suas telhas.
                                                           

O marido, cabisbaixo, sentado a um canto da lareira, não abria a boca porque, naquela casa, era ela quem mandava. Várias vezes, quando as coisas azedavam entre os dois, bem a ouvia dizer-lhe que se não estava contente a única solução era ir-se embora porque tudo aquilo lhe pertencia. 

E, outras vezes aconteceu, ela fazer com as coisas do marido, aquilo que estava a fazer com as minhas.

                                                      Imagem Google

Voltei a sair para o pátio e peguei apenas em algumas peças de roupa, as mais quentes, para poder agasalhar-me. 

Enfiei-as, ao acaso, dentro do pequeno saco em tecido e caminhei alguns minutos até junto dos currais do gado. Aí existia uma grande pedra em forma de banco onde me sentei, de lágrimas nos olhos, sem saber que rumo dar à minha vida. 

Passou-me pela mente regressar à minha aldeia, à minha casa onde, apesar de velhinha, teria um tecto para me abrigar. Porém, logo afastei essa ideia porque não tinha a mínima noção do sítio onde me encontrava. E, para piorar a situação, não possuía um único centavo.


Por isso tive de confrontar-me com a dura realidade: mais uma vez estava só no Mundo.
A partir daquele momento e durante muitos dias tive, como único tecto, o céu, o sol e por vezes a chuva, durante o dia, a lua e as estrelas, quando não havia chuva, durante a noite.

A minha ignorância, em relação às pessoas e ao mundo, fez-me acreditar que eu, pelo facto de amar alguém, era um ser desprezível. 
Contudo, por vezes, fazia a mim própria, esta pergunta: seria pecado ou algum crime amar e ser amado? Mas… E que crime? Condenável pelas leis de Deus ou dos homens?

Não conhecia nada em relação às doutrinas das religiões mas o pouco que aprendi na catequese e nas missas dos domingos era o que praticava: não fazia mal a ninguém, amava o meu próximo e ajudava os outros na medida das minhas possibilidades. 

Por vezes, oferecia apenas o meu ombro a quem tivesse necessidade dele e outras vezes, os meus ouvidos, escutando sem recriminações nem julgamentos. E, por isso, no meu íntimo, tinha a nítida convicção de que não tinha feito mal a ninguém. 


E, como poderia pensar de outro modo se, o que eu mais desejava era que todos os seres humanos que vivem sobre este planeta fossem felizes? 
Então, porquê aquela condenação, proferida com laivos de ódio, pela minha patroa? 

Se amava uma pessoa, em particular, isso não podia ser pecado nem nenhum crime!
Com estes pensamentos, talvez quisesse encontrar uma justificação para o que ninguém podia explicar-me. No entanto, por vezes sentia remorsos e isso levou-me a afastar-me do Manuel sem nenhuma explicação.

Sei que, depois das minhas interrogações, vagueei, ao acaso, pelas ruas mais desertas e escuras e não sei quanto tempo consegui caminhar. Só tinha uma certeza: sabia que estava só no mundo e, por isso, viver ou morrer, para mim tinha deixado de ser importante. 


Céus! Mas, como a sede, a fome e o frio eram difíceis de suportar! 
Então, pela calada da noite, quando julgava que ninguém podia observar-me, entrava nos terrenos cultivados, à procura de alguma coisa comestível que pudesse saciar a minha fome e a minha sede. 
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Depois, como se tivesse praticado um grande crime, afastava-me o mais depressa que as minhas forças me permitiam e procurava um sítio escondido  para que ninguém assistisse à minha degradação.

Porém, esta situação não poderia durar muito porque, cada dia que passava, eu sentia que as minhas forças iam diminuindo. Durante o dia escondia-me em algum recanto para não ter de enfrentar ninguém e, quando a noite chegava, já não tinha forças para procurar comida. 


No entanto, ainda tenho uma vaga lembrança de ter deixado o meu esconderijo e ter começado a caminhar. Mas, após ter dado alguns passos, as forças abandonaram-me e recordo-me ainda de ter caído no chão. Depois, tudo escureceu na minha mente.

Quando, finalmente, consegui abrir os olhos, vi alguém à minha cabeceira que me sorria. Era o Manuel. Ao saber da minha fuga não hesitou em procurar-me com o fim, determinado, de me encontrar, o que não lhe foi muito fácil. 


Levou-me para sua casa e durante aquelas semanas que permaneci de cama, foi para mim a enfermeira e a mãe carinhosa que me tinha faltado. Tratava-me com tanta dedicação e carinho que, intimamente, desejei ficar junto dele para sempre.

Depois de algum tempo e graças aos seus cuidados estava completamente restabelecida.
O Manuel vivia numa casita dos patrões que ficava no outro extremo da quinta. Fora para aí que me levara quando me encontrou. 

Como eu e ele estávamos sós no mundo e nenhum de nós tinha qualquer impedimento resolvemos casar.
O vestido branco até aos pés e o véu de cauda, com que sempre sonhara, não os tive mas nem por isso deixava de me sentir feliz. 

O mais importante para nós, naquele momento, era o nosso amor e a nossa felicidade.
A nossa vida decorria sem incidentes. O nosso amor e a nossa paixão envolviam-nos com o seu manto e juntos, achávamos que não haveria nada nem ninguém que pudesse separar-nos nem destruir o amor que nos unia.


                                                                                    Imagem Google    

Como estávamos enganados! Como a nossa juventude, o nosso amor e a nossa paixão escondiam de nós a realidade!
A guerra do Ultramar estava no seu auge e todos os jovens eram chamados a cumprir o seu dever e a dar a vida pela Pátria se necessário fosse. 

Ambos sabíamos que, em breve, o meu marido seria chamado a cumprir o seu dever. Porém, embora esse pensamento nos apavorasse, prometemos um ao outro que tal assunto nunca  seria abordado. 

Foi a maneira que encontrámos para não mostrarmos a tristeza que nos ia na alma embora ela estivesse sempre a chicotear o nosso pensamento. Queríamos tentar esquecer e viver um dia de cada vez, saboreando-o como se fosse o último.

Logo de manhã saíamos para trabalhar na quinta ( meu marido continuou a trabalhar nos patrões que arranjaram também trabalho para mim) e cada um ia às suas tarefas.
Por vezes, quando sabia que não havia ninguém por perto, dava livre curso à minha tristeza e dos meus olhos saíam lágrimas amargas.

À noite regressávamos ao nosso lar e era aí que nos sentíamos felizes: um junto do outro, fazendo, cada um, tudo o que estava ao seu alcance para que o outro se sentisse feliz. 
Mas, esta felicidade estava destinada a escapar-nos e, cada um de nós sabia que seria muito difícil, senão impossível, trazê-la de volta.

Até que, um dia igual a tantos outros, a carta chegou.
À noite, quando entrámos em casa, ela estava à nossa espera. O carteiro tinha-a metido por debaixo da porta. 
Olhámo-nos e depois olhámos a carta.

A nossa primeira reacção foi cairmos nos braços um do outro e, nesse momento, ambos chorámos abraçados.
Depois, olhámos, novamente, aquela carta que continuava no chão. E, nenhum de nós parecia ter coragem para arrancá-la do seu lugar. 

Era como se, ao tocar-lhe, ela nos queimasse as mãos, os olhos, a mente e o coração.
Não me lembro quanto tempo permanecemos abraçados. Lembro-me apenas, que ambos rezámos baixinho para que o tempo parasse!

Os minutos iam passando e aquela carta continuava no chão. De repente, pensei que, se fechássemos os olhos e rezássemos com muita fé, ela poderia desaparecer e não voltar mais. E foi o que fizemos. 


Porém, alguns minutos depois da nossa oração, voltei, devagarinho, a olhar na sua direcção. E, contra o que nós tínhamos pedido com tanta fé, ela continuava no seu lugar: estática! serena! implacável! E, um frio enorme percorreu-nos a espinha.

Desprendi-me, de mansinho, dos braços do meu marido e, antes de me afastar, beijei as suas lágrimas. Afastei-me um pouco, peguei na carta e, com as mãos a tremer, consegui abri-la.
O seu conteúdo não era longo mas não deixava margem para dúvidas: meu marido devia apresentar-se no quartel daí a vinte dias! 


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E nós nada podíamos contra isso! Fizemos apenas um pacto: nenhum de nós, até esse dia, falaria sobre o assunto. E, apesar daquele pensamento nos martirizar, ambos cumprimos a nossa promessa.
Até que, o dia chegou. 

E não chegou, de mansinho, para não nos assustar, mas sim galopando, qual cavaleiro portador de uma mensagem de más notícias.
Ele partiu e, mais uma vez, não tenho palavras para descrever a minha dor. 

O único contacto que podíamos ter era através de aerogramas que, para nós, parecia demorarem séculos a chegar ao destino.
Para poder sobreviver continuei a trabalhar na quinta. Mas, à noite, na solidão da nossa casa, o desespero tomava conta de mim. 

E era aí que dava livre curso à minha dor: chorava, rezava, pedia a Deus e a todos os Anjos e Santos que trouxessem o meu marido são e salvo.
Decorridos quase dois meses após a sua partida, soube que estava grávida. 

No meio de tanta dor e desespero esta foi a maior alegria e a maior bênção que Deus me enviou. E, logo que me foi possível, enviei a notícia ao meu marido.
A sua resposta levou muito tempo a chegar e eu ia contando os dias, que se faziam longos. 

Mas, finalmente, ela chegou.
Em cada palavra, em cada linha, em cada parágrafo eu lia a felicidade do meu marido e, por esse motivo e também pelo pequenino ser que crescia dentro de mim, as minhas forças e a minha alegria iam redobrando a cada dia que passava. 

E, mais uma vez, pedi a Deus, com toda a fé que sentia, para que aquela guerra terminasse, antes que o meu filho crescesse.
O tempo foi passando e o bébé nasceu. Uma menina a quem pus o nome de Manuela. 

“Bonito nome - respondeu o meu marido numa das suas missivas. Assim nunca esquecerá o nome do pai”.
Estas palavras, reais e simples ao mesmo tempo e que não encerravam nenhuma espécie de duplo sentido - era o que eu pensava - ficaram a martelar no meu pensamento. 

E, frágil como estava, senti um tremor por todo o corpo, acompanhado por um frio enorme. No entanto fiz os possíveis para afastá-lo de mim. O meu marido estava prestes a terminar a sua missão e em breve - dizia ele - estaria junto de nós.



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Mas, mais uma vez, o Destino não quis que assim fosse.
Numa manhã fria e cinzenta de Janeiro, um sábado, alguém bateu à porta. Fui abrir e, na minha frente, estavam dois senhores de uniforme que calculei pertencessem ao exército. 

Convidei-os a entrar e, depois de ter fechado a porta, puxei duas cadeiras para que se sentassem. Porém, eles agradeceram dizendo que preferiam ficar de pé. Sentindo-me desfalecer, pois logo imaginei o pior, fui eu que tive de sentar-me.

Os dois continuavam na minha frente e eu continuava à espera das suas palavras. Poucos segundos depois elas saíram. Foram poucas mas cortantes: “ Lamentamos muito informá-la mas… e aqui olharam um para o outro como se, de repente, tivessem ficado mudos. 


Depois, o que parecia mais novo continuou: o seu marido teve um acidente e faleceu”.
“Não! Gritei com todas as forças que me restavam, ao mesmo tempo que me punha de pé. Não pode ser! Ontem recebi este aerograma onde o meu marido dizia que estava bem!” E, tirando-o do bolso, estendi-lho.

Os dois homens olharam, novamente, um para o outro, e o mais velho pegou no aerograma olhando apenas a data. Respondeu em seguida:
“Lamentamos muito mas este aerograma foi escrito há três semanas e, ontem à noite, recebemos novas notícias.”

“ Mas…deve haver algum engano”! Gritei fora de mim.
“Infelizmente não há. Lamentamos profundamente. O seu corpo vem a caminho e informaremos quando tivermos mais notícias”. E, dito isto, abandonaram a casa.

Sei que tinham ido cumprir o seu dever. No entanto, nem uma palavra de encorajamento, de apoio, de compreensão ou de ajuda psicológica. Possivelmente nem saberiam o seu significado. Mas, naquele momento, para mim, nada era importante. 


Não seriam as suas palavras, rendilhadas ou não, que trariam o meu marido de volta.
E, aquelas palavras queimavam como um ferro em brasa! Queimavam a minha mente! Queimavam o meu pensamento! Queimavam o meu coração e todo o meu corpo! 

E, desejei, mais do que nunca, que Deus me levasse para junto do meu marido.
Sem forças, e como que hipnotizada, arrastei-me até à porta, fechando-a em seguida. 
Depois, aos tropeções, dirigi-me ao meu quarto, peguei na foto do nosso casamento e abracei-a com força junto ao coração. 

Ajoelhei-me sobre o tapete e debrucei-me sobre a cama em soluços. Sentia-me, novamente, só no mundo!
Não sei quanto tempo permaneci assim. Só me lembro de ter voltado à realidade com o choro da minha filha que, nessa altura, tinha dois anos.

Saiu da cama, deve ter-me chamado mas eu não ouvi.
Em seguida levantei-me e, como que saída de um pesadelo, coloquei a foto no seu lugar, peguei na minha filha e abracei-a com todas as forças que me restavam. 

Ela olhou-me nos olhos e, vendo que eu chorava, sussurrou na sua língua de trapos. 
“Não chores mamã.” E, em seguida, rodeou o meu pescoço, abraçando-me com todo o amor que o seu coraçãozinho de criança podia encerrar.


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As suas palavras trouxeram-me à realidade e, por momentos, lamentei o meu pensamento de minutos antes.
Sim. É inegável que a morte do meu marido me deixou de rastos durante muito tempo e sei que essa dor não desaparecerá enquanto a minha missão, sobre este planeta, não estiver terminada. 

Porém, aquela criança abraçada ao meu pescoço era a nossa filha e a continuação do nosso amor.
E, foi com este pensamento sempre presente, com a ajuda da minha filha e muita fé em Deus que consegui ultrapassar a perda do meu marido e outros momentos menos agradáveis que a vida me reservou.

Esquecer? Não! É uma dor que ficará para sempre.

A minha filha é hoje uma mulher que já me presenteou com dois netinhos. 
Tenho a nítida convicção de que tudo lhes pode acontecer. Não só a eles como a todos os seres que vêm a este mundo. Porém, uma coisa é certa: 

Sinto-me feliz pelos meus netinhos porque aquela guerra terminou. É certo que poderão surgir outras. Eu sei. No entanto, desejo, ardentemente, que eles nunca sejam obrigados a deixar a sua família e a sua terra para irem combater um inimigo desconhecido cujo sangue é igual ao seu e cuja guerra, também eles, nunca iriam desejar.

Quanto a mim, já no outono da vida, embora não possa esquecer, vou vivendo um dia de cada vez e sinto-me feliz porque Deus me presenteou com uma família maravilhosa que me tem ajudado a superar todas as ciladas que o Destino me reservou.



                                                           
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                                                                FIM



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