12 de setembro de 2014

O meu estatuto de pessoa superior dá-me todos os direitos



                         Imagem Google                                                   Estimados Leitores


Acredito que episódios como o que passo a descrever aconteçam todos os dias com qualquer pessoa, o que os torna banais, não merecendo de nenhuma das partes, a menor importância.



Porém, na minha opinião, estes episódios convidam-nos a refletir sobre o que vai mal nesta sociedade. E, quem sabe, uma palavra dita na hora certa, talvez levasse as pessoas a pensar duas vezes antes de se manifestarem.

Era uma tarde de sexta-feira. O sol brilhava ainda no horizonte mas, com a aproximação da noite, adivinhava-se uma brisa  fresquinha que, tal como nas noites anteriores, obrigava a não esquecer os agasalhos.

A parede que separava a esplanada do café, do terreno de cultivo, formava um ângulo reto e foi nesse cantinho - sempre gostei de cantinhos - que eu e as minhas amigas nos sentámos. Tínhamos necessidade de estarmos juntas - já lá ia um ano que não nos víamos - falar de tudo e de nada, enfim, pôr a conversa em dia. 

E o facto de estarmos juntas à volta daquela mesa a tomar o nosso "lanchezinho da praxe" dava uma grande alegria e felicidade a cada uma de nós. Penso que só os corações que amam de verdade conseguem sentir o que nos ia na alma.

Alguns minutos após termos sido atendidas, ouvimos o ladrar de um cão que se aproximava. Chegado à esplanada parou, continuando a manifestar-se na sua linguagem. Tinha todo o aspeto de um cão abandonado. Parecia desnutrido e as enormes carraças saltavam à vista. Não era, portanto, uma companhia agradável.

Não sei a que raça pertencia mas, dado o seu porte, calculei que podia engolir, num abrir e fechar de olhos, o pequeno yorkshire de uma das minhas amigas. Este, ao colo da dona, estava assustado e manifestava-se na sua linguagem.

Entretanto tinham-se sentado, numa mesa mais afastada, duas senhoras que, dado o seu porte, os seus gestos e a maneira como falavam e vestiam, não havia margem para dúvidas, pertenciam à classe média-alta.

A empregada aproximou-se, perguntou, delicadamente, o que desejavam e voltou a entrar no café, não sem antes ter enxotado o cão. 

As duas senhoras deviam ser donas de alguma das boutiques de luxo daquela rua, pois daí podiam avistá-las e estar atentas no caso de entrar algum cliente.

Logo que a empregada colocou sobre a mesa o que tinham pedido, ouviu-se uma voz mal-humorada: "pode levar o salgadinho pois era para o cão que você enxotou." A empregada não respondeu e voltou a entrar.

Coloquei-me no seu lugar e pude sentir a mágoa por aquela resposta proferida naquele tom. Tal como eu, as minhas amigas estavam chocadas.

Se analisarmos a atitude das senhoras em relação ao cão, merecem um louvor, embora eu pense que não seria um pequeno salgadinho que iria saciar a fome dum animal daquele porte. Neste contexto, uma pergunta impõe-se: se em vez do cão, tivesse aparecido um mendigo a pedir esmola será que teriam a mesma atitude? Fica a questão.

Porém, ao analisarmos a maneira como se comportaram em relação à empregada, chegamos à triste conclusão que, para aquelas senhoras, dar um salgadinho àquele cão era mais importante do que falar com gentileza e simpatia àquela empregada que tão gentilmente as tinha servido.

É caso para deixar outra  questão: onde estão os valores, a educação e o respeito que todo o ser humano, por mais humilde que seja, merece? A gentileza, a simpatia, o sorriso, uma palavra carinhosa e até um pequeno elogio não custam dinheiro.

Por último vou citar um pensamento do célebre escritor russo Leão Tolstoi que, justamente, nos convida à reflexão: "Não existe grandeza quando amizade, bondade e verdade não estão presentes."

PS. Uma das minhas amigas, ao ver a cena, levantou-se e entrou no café. Um minuto depois chegava com uma pequena embalagem. Olhámos e fizemos a pergunta, ao que ela respondeu: "é o salgadinho. Vou levá-lo para o meu gatinho. A senhora não queria vender-mo por já ter ido para a mesa mas eu insisti."
   
Se algum leitor quiser perder uns minutos a ler este pequeno texto e deixar um comentário, ele será bem-vindo.  
                                               Um Grande Abraço e Bom Final de Semana.
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